Sustentabilidade alinhavada

Microempresa organiza rede de costureiras e as ensina como contribuir para a conservação do meio ambiente por meio das ecobags, uma iniciativa pessoal para ser levada debaixo do braço

Siomara conheceu Carla na escola onde os filhos especiais de ambas estudam, em São Paulo. Formada em Publicidade e com muito interesse em moda, Siomara Cordeiro de Mello sempre gostou de desenhar produtos. Carla Simone Padula, por sua vez, tinha uma pequena empresa de confecções, herança de família. Compartilhando seus interesses e conhecimentos, as duas resolveram transformar o encontro cotidiano numa microempresa com um ideal: construir um mundo melhor. Estava feito o primeiro laço de uma rede de sustentabilidade que ainda não parou de crescer: a Modelandomundo. A produção principal é de sacolas feitas com retalhos reciclados para substituir os saquinhos plásticos nas compras. Mas os objetivos vão além do comercial: são também socioambientais e educacionais.

Como mães de crianças portadoras de deficiência, Siomara e Carla precisavam aumentar a renda familiar e, pouco mais de um ano atrás, já dedicavam todo o tempo livre à produção das sacolas. Apesar do esforço, não davam conta da demanda, então surgiu a ideia de montar uma rede de costureiras com outras mães em situação semelhante. “A maioria das mães cujos filhos tem algum comprometimento tem dificuldade em obter um trabalho e, também, tempo. Então, nós juntamos o que tínhamos”, conta Siomara. As costureiras trabalham juntas, mas no ritmo possível e no tempo disponível, recebendo por produção, conforme a experiência.

As sacolas reutilizáveis (ecobags) foram escolhidas como ‘carro-chefe’ por serem fáceis de trabalhar em casa, além de poderem ensinar muito: “Pensamos em fazer um produto que seja bacana e, ao mesmo tempo, possa colaborar com o meio ambiente”.

As sacolas são práticas e bonitas, feitas a partir de retalhos de tecidos diversos ou do chamado Tecido Não Tecido (TNT), um material à base de fibras aglomeradas que não passam por fiação e tecelagem como os panos tradicionais. Depois de costuradas, as sacolas ainda recebem um acabamento manual.

Para incentivar os consumidores a criar o hábito de usar as sacolas reutilizáveis, Siomara deu uma cara nova ao produto, sem o estereótipo de brinde ecológico de empresas. Segundo ela, “o logo muito grande atrapalha na conscientização, não cria o hábito”. Na loja virtual o consumidor pode escolher entre 12 modelos distintos.

O bom retorno do público logo na primeira feira de artesanato mudou o foco dos investimentos para a educação ambiental. As encomendas, hoje, chegam a 3 mil unidades por pedido, mas as microempresárias pretendem se estruturar para manter uma produção mensal de 10 mil sacolas.

Para começar, as duas sócias foram atrás de um grupo de costureiras em Itaquaquecetuba, cidade da Zona Metropolitana da Capital paulista, onde as mulheres ganhavam pouco para trabalhar em grandes confecções do Brás, em São Paulo. Seis costureiras terceirizadas foram contratadas. Trabalhando juntas, elas aprendem a valorizar o próprio trabalho e, com o tempo, também assimilaram seu papel na conservação ambiental. “É uma transformação completa na vida, porque a gente já estava usando essas sacolas mais retornáveis, pensando no nosso futuro”, comenta Sheila da Silva Araújo, uma das costureiras. “Para nós foi muito bom porque a gente passou a dar valor para o meio ambiente”.

“Quando se faz a educação ambiental, a ideia não passa batida”, resume Siomara. “O trabalho conscientiza e cria responsabilidades, fazendo a mentalidade nova transformar-se em ação”.

Mesmo sem grandes recursos, Carla e Siomara enxergam longe. Elas querem fortalecer uma cooperativa de costureiras, na qual a produção seja valorizada. Ao mesmo tempo, pensam em chamar outras mães que queiram aumentar sua renda trabalhando em casa. O ganho final é a mudança de mentalidade e de hábitos de consumo tanto para quem trabalha na Modelandomundo, como para quem compra e utiliza as ecobags .

Para saber mais, visite o site www.modelandomundo.com.br

Reportagem publicada na revista mensal Terra da Gente, ano 6 número 67, novembro de 2009.

Todos aqueles que quiserem, publiquem!

Não é mais necessário o diploma para exercer a profissão de jornalista no Brasil. Depois dessa conclusão do Supremo Tribunal Federal, opiniões anteriormente formadas ainda se chocam. A ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), por exemplo, são contra a obrigatoriedade do diploma, mas não excluem a necessidade de bons cursos de Jornalismo no país; do outro lado da mesa temos aqueles que são à favor da exigência do diploma, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), alegando que sem o diploma a qualidade do material produzido tende a cair. Pelo sim, ou pelo não, acredito que ambos estão discutindo com base em argumentações falidas.

Não adianta ótimos cursos de Jornalismo se eles são reduzidos a uma quantidade mínima da população que se interessa e/ou tem a oportunidade (leia-se dinheiro ou muita “garra” no vestibular) para ter uma base nessa profissão que, pessoalmente, acho mais do que obrigatória para o funcionamento da sociedade. Em contrapartida, cortar o diploma porque este atenta à liberdade de expressão? A liberdade de expressão existe sim e, hoje em dia, ela está cada vez mais difundida, na internet. O problema é a acessibilidade da população a esses novos meios de comunicação. Os blogs, os fóruns, até mesmo as páginas de relacionamento (quando bem aproveitadas) dão liberdade suficiente para o indivíduo escrever o que quiser e publicar em rede mundial.

Antes, porém, temos que nos perguntar o que faz um jornalista? Escreve, publica, informa à população. Resposta certa, mas restrita. Na “era da informação” quem organiza e expõe todos os argumentos importantes do dia para você, leitor, é o jornalista. Este profissional ainda se aprofunda em temas que você (leitor) não tem tempo de procurar porque tem o seu trabalho, e tempo é dinheiro. Em suma, o jornalista trabalha em cima daqueles assuntos que as pessoas geralmente não têm tempo de se informar e repassa-os. Agora, lhes pergunto, a informação é de tão boa qualidade e engloba todos os fatos que você – leitor – perdeu durante o dia? Não.

As empresas de comunicação no Brasil se fecharam de tal maneira que se mostram homogêneas, fazendo parecer que todos os canais mostram os mesmos assuntos. A opção é abrir um jornal próprio e nadar sozinho contra a corrente ou entrar nesse mundo cão sem problemas. Podem me dizer que eles são tão parecidos justamente porque querem mostrar todos os fatos e, assim, serem imparciais. Mas, convenhamos que, hoje em dia, o jornalismo vem caminhando numa mão única: se é imparcial, não é completo; se mostra somente aquilo que lhe parece certo, é parcial. Não há problemas em ser parcial, desde que em nenhum momento a mídia traia seus preceitos. Isso é ter diferentes opiniões para que, posteriormente, o público decida o que quer seguir.

O problema não é o diploma. Não é diploma que traz qualidade, mas sim como os profissionais se utilizam dele. A qualificação de uma instiuição credenciada pelo MEC (Ministério da Educação) na formação de jornalistas não adianta se, quando ele entra no mercado de trabalho, vira uma máquina capitalista de vender jornais.

Eu, como jornalista que sou, sei que falar estas coisas parecem ser revolucionárias e teóricas demais. “Ahh… são as grandes coorporações que manipulam e blá, blá”, mas é isso que se aprende nas “escolas de Jornalismo”, os erros do passado que dão base para o avanço ideológico. Segunda pergunta capisciosa: E estamos avançando?

Que público nós temos? Que jornalistas, com liberdade de expressão poderemos ter, sendo que metade da população não sabe minimamente como funciona a política desse país. E mais, o que a grande mídia já constituída no Brasil está fazendo para mudar isso? Temos que cobrar mais e denunciar menos. Estou vendo os dedos apontados para mim dizendo – seu “lulista” – mas a verdade é que, como profissional da informação, estou apontando o dedo para mim mesmo.

Estou prevendo uma descaracterização do Jornalismo com essa resolução do STF. Vão dizer, “Todos podem ser jornalistas? agora é que a imprensa perde a qualidade”. A primeira conclusão é verdadeira e positiva, mas a segunda está muito errada. Não vamos decair, a menos que trabalhemos junto a população numa tentativa de educar. Se podemos todos dar nossa opinião, mostremos como. Pois, sinceramente, acredito que não é por causa da não exigência do diploma que os grandes jornais vão sair contratando médicos. Pelo amor de Deus! precisamos dos médicos e também de algum blog com suas opiniões sobre a política, por exemplo. São muitos problemas para poucos discutirem, com vontade. Essa é uma abertura alegórica, mas pode ser bem fundamentada. Então, seja um jornalista, investigue, procure saber seus direitos e tenha curiosidade de saber o que os engravatados fazem lá, naquele belo edifício em Brasília.

ADENDO:

.sites para se começar um blog, conheço dois grandes: http://www.blogspot.com / http://www.wordpress.com (pode-se modificar a linguagem do menu para português, indo em configurações)

.como se informar o máximo possível em menos tempo possível: http://www.twitter.com (se você seguir os principais do Brasil e do mundo e não somente o Hugh Jackman[Wolverine]). Mídias que já encontrei no twitter e que deixam links para as notícias – Bandeirantes; Folha de São Paulo; New York Times; El País; The Guardian etc.

.site que organiza todos os escândalos discutidos no Congresso:  http://noticias.uol.com.br/escandalos-congresso/

Gustavo Moreno,

estudante de Jornalismo da Facamp, sétimo semestre.

Cinco capítulos de uma viagem ao Rio de Janeiro

5. Na fumaça, o grande prêmio, de cartola e uma guitarra.

É o fim. Valeu a pena mesmo, eu cansei para valer. Olhei para a janela do carro, o Chico murmurava alguma música na outra ponta do banco traseiro. No do passageiro, o Caiosa falava sem parar, “Como foi demais, na minha frente! Você é um imbecil Carioca”. Pressionando as mãos no volante ele retruca, “Tava de saco cheio”. O sono bateu, mas, mesmo assim a vontade era pegar mais umas cervejas e “virar a noite” de sábado. O Rio tem tanto a oferecer nas noites de sábado. “Será que você já não gastou o suficiente antes do show?” – falei para mim mesmo. Nessa altura do campeonato eu já devia uns 20 reais da gasolina e nem a cidade deixamos ainda. Duas da manhã. O show? Já foi. Maravilhoso, indescritível, só nosso.

Depois de visitarmos o Cristo à tarde, tratamos de arranjar um jantar. Corremos por Ipanema, Copacabana e Leblon em busca de uma pizzaria, mania de paulista de comer pizza aos sábados. Foram três sentadas seguidas. Uma olhada rápida no cardápio, cara de espanto e saída de “fininho” em cada lugar que entrávamos. “Velho, desencana, vamos comprar uns miojos e comer em casa mesmo”, palavras sábias de sabe lá quem, o pensamento dos cavaleiros já era um só: nutrir-se o mais rápido com algo que sustentasse e não fosse derivado de cevada. Escolhemos o miojo, um para cada, sabores diversos (de frango caipira à yakisoba). Tudo bem cada um escolher um sabor e fazer o seu, mas, como só faltava 2 horas para o tão esperado show, atrasados é que não iríamos chegar.

Uma panela, cinco pacotes de miojo, cinco diferentes “pozinhos” de sabor, uma pitada de malte de cevada industrialmente processado – e gelado – mais o toquezinho final de Whisky Johnny Walker (afinal, isso é raro. Obrigado Carioca). Uma receita bombástica. Ferva até o cheiro de álcool passar e sirva direto na panela. Não, ainda não chegamos no ápice de rasgar o livro de etiquetas: uma panela no centro da mesa, cinco garfos se digladiando por fios de miojo bem temperado, com destino a bocas famintas de homens sem camisa, arrotando cerveja. E na sacada do prédio.

A refeição foi devorada em poucos segundos. Um a um, foram se banhar e se tornar – no mínimo – decentes. Mais uma imagem para vocês. Agora, já prontos para a missão final, em busca do “Graal” da viagem, eles brindaram. Como espadas se encontrando no céu, os copos de whisky tilintaram para, logo depois, esvaziarem-se nas gargantas que queimaram levemente. Pé na estrada.

Chegamos faltando meia hora para o show, a fila era enorme, mas estava indo bem rápido. Estacionamos e entramos. Grande palco, bem espaçoso. Estava assim também porque foram no máximo 4mil pessoas, pouco para um show internacional, por exemplo. Dividindo essas pessoas em camarote e pista, ficaram vários espaços vazios. “Vamos andar juntos ou separados”, pergunta o Daniel. A abertura das cortinas foi a resposta, cada um a partir daí fez sua história.

Daniel

“Minha história não deve ter sido a mais empolgante. Também, assisti o show de trás. Estava vazio, consegui até me deitar uma hora. Porém, pude conviver com pessoas sensacionais. Do meu lado direito estava um ser, baixinho, de bermuda e camisa xadrez. A barriga era um pouco saliente. Mas foi a barba que me chamou mais a atenção. Não era apenas uma barba, era a “barba”, ou melhor, o “Barba”. Confundiu? Bom, irei explicar: era o baterista do Los Hermanos, minha banda nacional preferida. Já sabem o porque do sobrenome. Não conversei com ele e nem consegui tirar uma foto (também, ele estava com uma garota e, após o fim do show, saiu muito rápido do local). Acompanhar o show de uma banda muito boa, do lado de um baterista tão foda, foi sensacional. Os gostos devem se equivaler, pena que a capacidade musical não. Mas, voltando ao show do Velvet Revolver, foi muito bom. Confesso que não foi o melhor que eu já fui, mas foi muito bom. Pena que não tocaram minha música predileta: Dirty Little Thing (ou será This?).
Bom, marquei presença em mais um ótimo show dentre vários que eu fui. De lembrança concreta, além das fotos, ficou o meu ingresso para o show. A única coisa ruim foi a dó que senti do meu amigo Carioca, vulgo Rafael”.

Chico

Era a minha banda preferida no momento, ali, ao vivo. Esperei ansioso durante tanto tempo pela abertura do show, parte em que a banda tradicionalmente toca uma inconfundível sirene de Polícia, levando a galera à loucura! Lembro-me bem quando ouvi aquele “uUUÚÚÚÚÚUURLL”, ao vivo, arrepiando até os pelos do … enfim, deixa pra lá. Só digo que a banda  fez-me sentir o próprio rock star. Sem falar no monstro da guitarra… o Sr. Cartola, de camisa aberta mostrando os piercings nos peitos; na chamativa calça de couro e com o tradicional all-star nos pés… que me desculpem os leitores, mas PUTA QUE PARIU! me lembro de entoar um coro junto com a platéia, antes do show (em carioquês, obviamente): “IXSLASHI, IXSLASHI, IXSLASHI”. Foi uma briga e tanto, mas o Porto, o Caiosa e eu fomos parar ao lado do palco… CONSEGUIMOS!!! A essa altura, o Daniel já tinha ficado pelo caminho e o Carioca, bom, esse já estava mais mamado que um cabrito antes mesmo do show começar. Provavelmente estava caído em algum canto como um verdadeiro mendigo e sem a carteira. “Foda-se, é o show do Velvet, porra!”.

Enquanto o show decorria, presenciei vários momentos marcantes, como quando um segurança do tamanho de um touro, de cabelos loiros, tentava fazer com que eu e o Porto nos afastássemos um pouco do palco. Ou quando eu levantei as mãos pro céu num momento de agradecimento após a música “Used to love her”, ainda dos tempos de Guns N’ Roses, e o baixista, Duff, jogou sua palheta pro público, vindo parar sem cerimônias em minhas mãos! Podem acreditar, tudo isso aconteceu. Apenas nos entreolhávamos enquanto éramos levados de lá pra cá, de cá pra lá pela multidão, que pulava sem parar. Mesmo assim, sabíamos muito bem o que cada um dizia para o outro: “Cara, olha isso! Da para acreditar que estamos vivendo isso?.

What a night fellas…”

Caiosa

“Foi demais! O show foi fudido, mesmo com pouca gente. Desde o começo eu me perdi da galera e fui para frente do palco. O chico e o Porto tentaram me acompanhar, mas eu estava tão animado de ver o Slash na minha frente que deixei todo mundo. Encontrei com eles algumas vezes, mas meu melhor momento foi sozinho. Estava grudado na grade e, de repente, Scott Weiland ( todo estiloso), esticou o braço com o microfone para a platéia cantar, justamente onde eu estava. Gritei como nunca o refrão de Slither, a música mais conhecida do Velvet Revolver, foi demais. Só o carioca imbecil não soube aproveitar o show”.

Carioca

“Ah, velho, eu não estava com saco. Fui dormir no carro na metade do show!”

Para mim, minha maior lembrança do show foi mesmo o mestre, entre a névoa do palco e o balbuciar da fumaça do cigarro em seus lábios, fazendo um solo de guitarra em minha frente. As pessoas passavam, atrapalhavam a visão, mas, quando ele começou, o mar de gente se abriu em dois e, ao fundo, em seu instrumento divino ele tocou nossos corações. Épico? Fanático? Foi só meu e isso é o que importa.

Agora, é de todos…

brinde copy

…esperamos que tenham gostado!

Cinco capítulos de uma viagem ao Rio de Janeiro

4. O gringo e o Rio

Muitos caracterizam o Rio de Janeiro como a cidade do samba ou como a terra da malandragem, das mulatas e das praias maravilhosas. Geralmente, essas denominações atribuídas à cidade são dadas pelos turistas, personagens ímpares que também compõe a paisagem carioca. Os “gringos” adoram o Rio e o elogiam muito, mas quem fala dos gringos? Tentarei mapear, de forma rápida, esse personagem nesse capítulo.

Tudo começa com a nossa própria empreitada como turistas no Rio, a visita ao Cristo Redentor. Não falávamos estrangeiro, nem usávamos camisas floridas – duas importantes peças para a formação do turista gringo oficial – porém, empunhávamos seu instrumento principal de caracterização: a câmera fotográfica pendurada no pescoço (algumas variações literárias apontam também para a filmadora).  Saímos na manhã de sábado, para acalmar os ânimos até o esperado show na noite daquele dia. Começamos a passar pelas avenidas e a circular pelos bairros conhecidos, Copacabana, Ipanema e Leblon. Era nítida a presença dos gringos nas famosas praias cariocas. Primeiro porque o sotaque é inevitável e, segundo, porque os preços de tudo eram colocados em dois idiomas: o real e o dólar, com uma “leve” alta para melhorar o câmbio, talvez.

Enfim, acabamos nos distraindo e paramos no Pão-de-Açúcar. Para quem já foi ao Rio sabe que o Pão-de-Açúcar é completamente oposto de onde está o Cristo, fazendo-nos decidir por ele ao invés de voltarmos. Paramos o carro em frente à entrada do “bondinho” e vimos o preço, quarenta reais, por pessoa.

Afinal, o que são mais alguns minutos dentro do carro até o Cristo? Meia hora depois, nós o contemplávamos aos pés do Corcovado. Por último, mais uns 15 minutos de subida íngreme (no melhor estilo serra do mar), para chegarmos a ele. Preço do estacionamento: 10 reais (Ufa!).

Logo nas primeiras escadarias, nos deparamos com o estereótipo do turista japonês. Sem ofensa aos japoneses, tenho amigos japoneses, mas estes estavam pedindo. Oito pessoas, em média, circulando e falando alto em sua adorável língua natal. Pasmem, 80% estava de camisa florida e com uma máquina fotográfica no pescoço. Continuamos até o final dos lances de escada e lá estava ele, imponente, tomando conta do Rio. Batemos fotos “manjadas”, com os braços abertos, e apreciamos a vista. Somente enquanto estávamos debruçados no parapeito que tivemos nosso único momento de aproximação, de fato, com nossa espécie estudada, o gringo. Era um daqueles tradicionais ingleses, muito branco (ou avermelhado pelo Sol), loiro e alto. Sem camisas floridas dessa vez. Ele simplesmente virou-se e disse no melhor “britshnês”, “Good afternoon”, e se foi. Conseguimos apenas uma foto.

O gringo, a foto.

O gringo, a foto.

Em nossa penúltima missão cumprida, vimos o turismo e os turistas do Rio, além de apreciar as magias do empreendimento que é o turismo. Isso vimos nos preços exacerbados e na diversa quantidade de lembrancinhas, também inflacionadas. Fui tentar levar uma miniatura, mas fui alertado pelo Carioca – Isso você encontra pela metade do preço, senão menos, em Paraty. Minha mãe ficou sem a miniatura, mas eu pude contribuir com o estacionamento.

Uma vida pela pipoca

Acompanhe na página a seguir um perfil desta personagem Dona Nega segurando seu retrato no carrinho de pipocas

ícone na história de Porto Feliz. Dona Nega, 83 anos de  idade, conquistou tudo através de seu ganha-pão: a pipoca. Mais de 30 anos no mesmo ponto, na praça Matriz de Porto Feliz, Dona Nega  cultivou amizades inesquecíveis e histórias gostosas de se ouvir. Espero que gostem:


https://cronicasdoporto.wordpress.com/uma-vida-pela-pipoca-um-perfil-de-dona-nega/

Gustavo

Cinco capítulos de uma viagem para o Rio de Janeiro

3. A saga da praça Mauá

Nem tudo são flores numa viagem. Lembro-me da alegria que foi aquele fim de tarde na “Prainha”. Era a primeira vez que o Rio de Janeiro nos abrilhantava com suas belezas naturais. Para chegar na bonança, porém, atravessamos a tempestade. Foram horas de fortes ventos de frustração e rodamoinhos de coisas erradas. Passamos apuros onde achávamos que nos daríamos bem, na selva de pedra.

Mesmo sendo portador de grande riqueza turística, como praias famosas e grandes monumentos, o Rio de Janeiro possui um centro muito parecido com São Paulo: edifícios velhos – muitos, mal-cuidados – e grande aglomeração de pessoas apressadas. O grande paradoxo da cidade maravilhosa deve ser este, pessoas de terno e gravata, suando, com pressa, esbarrando em gringos de sunga e surfistas “marrentos”. Às vezes, é como o sonho paulista de querer sair do trabalho e achar a praia ali, a alguns quarteirões, e não quilômetros serra abaixo.

Essa vontade estava pululando em nosso interior. Queríamos a praia; e queríamos agora! “Eu sei um lugar que é perfeito” – disse o Carioca tentando nos amansar. Eram dez da manhã da sexta-feira e estávamos discutindo o cronograma do dia.

– Calma galera, fiquem tranqüilos que hoje eu levo vocês na Prainha. Vamos depois de almoçar – insistia o Carioca, confiante.

– Ta bom, mas antes temos que levar um documento para o meu pai num edifício em frente à praça Mauá – finalizou Daniel.

Tudo certo. Era só deixar um documento nesse lugar e estaríamos livres para ir à praia. O Carioca não tinha idéia de onde ficava essa praça, mas não era problema, com cinco pessoas no carro acharíamos facilmente, certo?

Duas horas de trânsito depois, descobrimos que estávamos errados. Faltavam algumas quadras para chegar no centro para, só depois, perguntarmos onde era essa tal Praça Mauá. Rodamos… Paramos e perguntamos… Voltamos. Já eram mais de duas da tarde e não achávamos nem um sinal da praça. Mais uma vez nós ficamos horas no carro, sem ar-condicionado, com o Sol sorrindo e dizendo: “vocês deveriam estar na praia, não?”. Mais uma meia-hora de sofrimento e estacionamos em nosso destino. Faltava achar o prédio. Eram todos iguais. Bom, se o pai era do Daniel, nada mais justo do que ele sair e procurar o tal prédio. Enquanto ele fazia isso, ficamos olhando em nossa volta. A praça era miúda, sem expressão em meio aos prédios, sombreada e cheia de mendigos. Logo ao lado, uma feirinha. Horas depois do almoço e subia aquele cheiro de pastel frito na hora (que covardia). O Caiosa se arriscou.

Minutos depois, o Daniel retorna com o papel na mão.

– Não pode entrar de shorts – explica. Quanto amadorismo de nossa parte. Sabíamos que era um edifício público, relacionado à Justiça, é óbvio que só era permitida a entrada com calças. Olhamos para baixo, todos com calção de banho e óculos de Sol. Os chinelos só pioravam a situação. Diante desses fatos não restava nada mais senão cada um colocar a culpa no outro e discutir em voz alta.

– Vamos embora, depois a gente volta…

– Você vai pagar a gasolina por um acaso?…

– Deixa o Daniel sozinho aí, vamos pra praia!

Até os mendigos começaram a prestar atenção na discussão. Porém, o Daniel encontra uma solução: pedir para alguém que esteja devidamente trajado subir e entregar para ele. Todo contente com a resolução, ele retorna para sua missão.

Observamos de longe. Um indivíduo de terno e gravata sai do prédio e é interceptado por nosso cavaleiro. Assusta-se no começo, mas depois parece entender a frustração de nosso amigo e se comove. O indivíduo volta para dentro com o documento em mãos. Minutos depois eles se despedem na entrada do edifício e o Daniel volta.

– Tive que pagar dez reais para ele subir e entregar o documento.

Sentíamos que esse homem era parente, ou amigo, do primeiro policial que nos parou. Parece que tudo se resolvia com um dinheirinho a mais. Um problema do rio de Janeiro? Não, é um problema do Brasil, com certeza.

Esquece, vamos à praia. Eram cinco horas da tarde.

Cinco capítulos de uma viagem para o Rio de Janeiro

2. Lugar Insólito

Porta de madeira, casa escura, o silêncio reinava. Os móveis há tempos não confraternizavam com pessoas. O único movimento era uma poeira aqui ou ali esparramada pelo vento. De súbito, do outro lado da porta, ouve-se uma barulheira. Parecem vozes, pessoas conversando – em alto e bom som. Não era briga, o tom era amigável. Um barulho de chave, duas voltas, um clique na porta: os cinco cavaleiros entram em seu forte temporário.

Rindo, vasculham a casa sob as instruções do Carioca – Aqui é o banheiro… ah, este outro é o meu quarto – cada um escolhe seu canto. Eu fiquei onde era o quarto da irmã do Carioca. Estava totalmente vazio, nem cama tinha, dormi em um colchão. Depois de nos acomodarmos, demos uma olhada pela sacada e vimos a paisagem. O apartamento era de costas para a praia, então, só vimos casas e aspiramos um cheiro de bairro residencial.

– “Bora pra praia!” – não lembro quem disse isso, mas foi como uma ordem vinda de nossas próprias cabeças. Três segundos depois, lá estavam eles caminhando pelas ruas do bairro, em busca de uma praia decente. O barulho dos chinelos mostrava como estávamos sedentos por uma água salgada. Quando enfim chegamos à praia (duas quadras da casa do Carioca), ninguém à vista.

– Como não tem ninguém na praia?

– Hoje é quinta-feira, as pessoas trabalham, não? – disse o Carioca em resposta.

No dia seguinte, tentamos uma outra praia, pois, sinceramente, a praia do Recreio não era muita coisa e estava vazia. Confiando em nosso guia, que prometeu nos levar para um ótimo lugar, entramos no carro em direção à “Prainha”.

Foi o primeiro ápice da viagem. Acho que nunca na minha vida vou repetir essa frase, mas vá lá, “Desta vez o Carioca acertou”. O lugar era um reduto escondido nesse imenso litoral brasileiro e possuía tranqüilidade, água limpa e um quiosque decente. Sentamos numa das extremidades da praia, perto das pedras. Não tínhamos esteira ou cadeiras, sentávamos na areia mesmo. A única coisa que empunhávamos (além dos próprios chinelos), e com gosto, era a Urna com o Líquido Sagrado. Em outras palavras, a térmica com a cerveja. Pedimos uma porção de fritas no quiosque e começamos a jogar baralho em cima da térmica. Parece que esse momento se eternizou na minha mente. Os cinco estavam lá, unidos por um ideal: divertimento e amizade. Subimos nas pedras e vimos que tudo o que tínhamos feito valeria a pena. Demos umas gargalhadas nas pedras e pulamos, um por um, de encontro com a água refrescante do mar. Sentamos, por fim, no quiosque e sossegamos. Até que o Carioca jogou uma “bola de areia” no Caiosa e deu-lhe as costas, rindo. Num movimento sem igual, a vítima levanta-se e, literalmente, salta para cima do seu agressor. Os braços do Caiosa agarraram-se de forma certeira nas duas pernas do Carioca, levando-o a um inevitável tombo na areia. Alguém, então, grita: “guerra de areia!” E ela começa. Areia, água e risos, uma combinação perfeita. O Sol até se cansou de nós e se escondeu. Voltamos ao apartamento no início da noite, satisfeitos e ansiosos para o show do dia seguinte. Fomos dormir só depois das 2h da manhã, quando o assunto na sacada acabou.

Continua…

prainha, das pedras

prainha, das pedras